
Uma folha de papel em branco. Assim parece a nossa mente às vezes.
Havia tanta coisa lá e, de repente... tudo some: tudo o que havia torna-se irrelevante, aguado, inssosso, banal, desprezível, esquecido.
Quereríamos povoá-la novamente de ricos pensamentos, de projetos, de ideais mais ou menos realizáveis.
Quereríamos que estivesse outra vez fervendo de emoções, de causas nobres pelas quais bater-se, de planos de ação.
Mas não: ela fica parada, inerte, passiva, deprimida, à espera de algo ou de alguém que a anime, que a recreie, que a afague e console.
Uma triste mente de papel em branco, que insiste em nos interpelar.
Talvez o vazio da mente, percebido em certos momentos, deva-se a um vazio de relacionamentos pessoais.
Quando os vínculos que nos unem a outras pessoas são fortes, então...
...pensar nesses seres amados, em como agradá-los, ajudá los...
...ou simplesmente pensar num modo de estar com eles...
...passa a ser um instinto mental, uma constante lembrança, um povoamento perpétuo da mente, que então jamais fica vazia.
O vazio da mente talvez nada mais seja do que o vazio do coração.
Diz o velho aforismo: quem ama, lembra.
Quem ama evoca o objeto de seu amor constantemente, e nessa lembrança encaixa tudo o que vê, diz ou faz.
Um outro ditado afirma que o amor é criativo:
Sabe inventar mil maneiras de insistir na relação amorosa uma e outra vez, por mil caminhos e pretextos.
Sabe colocar aos pés do ser amado, como uma oferenda, um mundo modificado pelos atos de amor que realiza.
O amor convoca, reúne todas as coisas... como quem embrulha o universo inteiro em papel de presente.
E esse convocar é uma tarefa perpétua, que não deixa a mente ociosa.
A desagradável impressão de mente vazia tem além disso um tom saudosista: onde foram parar, por exemplo, aquelas histórias, aquelas narrativas que tanto me impressionaram no passado?
Como uma criança que enjoou de ouvir velhas histórias, e pergunta por novas, assim também a mente sente um certo vazio narrativo, uma carência de literatura que denota ter havido um certo desleixo nesse tipo de leituras.
Quando se trata de nutrir a própria mente com histórias, biografias, romances, novelas e contos, etc., o jejum traz péssimas conseqüências, entre as quais esse marasmo que alguns qualificaram de atrofia narrativa, mas que talvez se possa chamar de anorexia narrativa.
O instinto humano por imitar, por adequar-se ao estilo de algum herói ou modelo, é um insubstituível motor vital, que só funciona à base de exemplos concretos, de cenas imagináveis, de algo que lhe sirva de ponto de referência.
Mas além da paralisia vital que a falta de literatura provoca, existe ainda outra conseqüência nefasta, derivada da primeira, mas peculiar: a paralisia comunicativa.
De fato, boa parte das nossas conversas são narrações, e quem não houve muitas e boas narrações acaba por tornar-se incompetente para fazer as suas próprias.
A mente vazia de histórias não sabe muito bem como contar os fatos: apela sempre para os mesmos trejeitos, e acaba por tornar-se aborrecida, e encarar a comunicação como uma tarefa tediosa.
E à força de não querer — por não saber — se comunicar, mergulha no vazio despeitado de quem desistiu.
Todos vocês, pingüins: venham a este blog!
Temos que ler e sobretudo conversar mais!
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